Capítulo Um — Água e Silêncio

A água estava gelada antes mesmo de tocar o chão.

Clara sentiu o balde escapar dos dedos do mesmo jeito que costumava sentir as coisas escaparem: tarde demais, quando o corpo já tinha ido longe demais para recuar. O cabo deslizou pela palma. O segundo balde veio logo depois, antes que ela conseguisse firmar o peso do próprio corpo. Quatro galões de água ensaboada se ergueram por um instante sob a luz do inverno e então caíram sobre o maior cão que ela já tinha visto.

O pátio de serviço mergulhou no silêncio.

As tesouras do jardineiro pararam no ar. Duas camareiras congelaram com os lençóis pela metade. O ajudante do estábulo, que carregava fardos de feno, deixou a corda escorregar pelos dedos. Até o vento pareceu recuar por um segundo.

Clara continuou no chão, com os dois joelhos apoiados na pedra trincada e as mãos ardendo da queda. A água escorria em filetes escuros pelo pátio. No centro de tudo estava o cachorro.

Ele parecia ter sido moldado para ser maior do que qualquer perigo ao redor. Um cane corso preto, enorme, com ombros largos demais para portas comuns e uma cabeça forte o bastante para intimidar qualquer um. O pelo encharcado colava no corpo. A água descia pelo focinho, pelo peito e pela linha rígida das costas. Ele não se sacudia. Apenas a encarava com olhos da cor de moedas antigas.

Pesava quase setenta quilos. Pertencia a um homem cujo nome fazia gente importante engolir em seco. E, três semanas antes, tinha deixado um tosador profissional no pronto-socorro, com pontos no braço — uma história que os funcionários contavam aos recém-chegados como se fosse um aviso oficial.

Clara apoiou a palma no chão molhado. Uma borda afiada mordeu sua pele.

“Seis dias”, pensou. “Seis dias de trabalho, e agora tudo termina exatamente como Grant disse que terminaria.”

A cabeça do cachorro baixou um pouco. Um som grave saiu do peito dele — ainda não era ameaça, mas também não era calma. A vibração pareceu atravessar a pedra e subir até as costelas dela. Ele tentava dizer alguma coisa, e Clara não sabia decifrar.

Então passos de salto ecoaram na entrada do pátio.

“Bem”, disse uma voz feminina, lisa e cortante ao mesmo tempo. “Isso explica a cena de ontem.”

Clara nem precisou olhar. Reconheceu Bianca Russo pelo tom que ouvira no café da manhã, quando derrubara um serviço de prata diante de vários convidados. As xícaras haviam rolado pela mesa como peças perdidas, e Bianca sorrira daquele jeito calculado, como quem guarda a humilhação para depois.

“Talvez o cachorro termine o que a bandeja começou.”

Um riso curto surgiu perto do estábulo e morreu logo em seguida.

O rosto de Clara queimou. Ela apoiou a outra mão na pedra e tentou se levantar. O sapato esquerdo — com a costura aberta, que ninguém quis consertar — escorregou na superfície molhada. O joelho voltou a bater no chão, e a dor subiu pela perna.

O rosnado do cão ficou mais baixo.

“Afaste-se do meu cachorro.”

A voz veio da porta atrás dela. Não foi alta nem apressada. Chegou como chega o frio quando alguém abre uma janela em outro cômodo: primeiro presente, depois percebido.

Clara virou o rosto.

Matteo Moretti estava sob o arco de pedra, de sobretudo preto, com neve pousada nos ombros. Ele era ainda mais imponente do que ela imaginava pelas breves aparições entre janelas e salas de jantar. A quietude dele fazia os outros parecerem desajeitados. Dois homens de casaco escuro paravam alguns passos atrás, com as mãos à vista e os olhos atentos.

Ele olhou para Clara no chão, depois para a água espalhada pela pedra e, por fim, para o cão imóvel no centro do pátio.

“Eu disse: afaste-se.”

“Eu estou tentando”, respondeu Clara, mais fraca do que gostaria. “Meu sapato…”

Ela se ergueu com esforço. O tornozelo virou um pouco, e ela precisou se segurar na parede para não cair de novo.

Bianca aproveitou o momento com um sorriso afiado. “Ela nem consegue ficar em pé. E querem que cuide da casa?”

O olhar de Matteo deslizou até Bianca. Não foi um ataque. Foi apenas atenção mudando de direção, como um feixe de luz. O sorriso dela vacilou. Ela ajeitou o casaco claro e se calou.

Clara enfim ficou de pé. As mãos estavam arranhadas. A saia, ensopada. De portas e janelas, vários empregados observavam tudo. Ela já conseguia imaginar a história circulando pelo corredor mais tarde: a nova criada, a que não cruzou um pátio sem causar confusão.

Mas ela não olhava para os funcionários. Estava olhando para o cachorro.

As orelhas dele estavam coladas para trás, não em agressividade, mas como se quisesse ocupar menos espaço. A respiração vinha acelerada, em baforadas curtas que soltavam vapor do focinho. E a pata traseira esquerda tremia toda vez que ele tentava distribuir o peso.

Perto da entrada do estábulo, o tratador segurava uma guia de couro. Era ele quem levaria Bruno para o banho da tarde. Cada vez que a fivela batia na pedra, os olhos do animal saltavam para o som.

“Ele não está irritado porque está molhado”, disse Clara, antes de pensar melhor.

Matteo voltou a olhar para ela. “Você chegou a essa conclusão enquanto estava no chão?”

“Tive uma boa visão.”

Bianca soltou uma risada. Ninguém acompanhou.

Clara respirou fundo e, apesar da vergonha e da dor, percebeu o que estava diante dela: um cachorro assustado, uma sala inteira pronta para julgá-la e um homem que, por alguma razão, parecia ter acabado de reparar que ela existia. E, naquele silêncio tenso, a história ainda estava só começando.

Rate article
Add a comment

;-) :| :x :twisted: :smile: :shock: :sad: :roll: :razz: :oops: :o :mrgreen: :lol: :idea: :grin: :evil: :cry: :cool: :arrow: :???: :?: :!:

Capítulo Um — Água e Silêncio
Nocna wizyta, która odmieniła wszystko